Hey There

“Partir é morrer um pouco", diz o adágio.

"Mas é melhor partir que morrer", retruca Carrara.

Lino Zolin

Il Giornale di Vicenza

14 agosto de 2001

A Partida (La Partenza)

Emigrar é mais do que transpor fronteiras para iniciar uma nova vida em outro país. É, diante das dificuldades diárias e da falta de perspectiva, despedir-se de uma parte de si. Dizer adeus à sua terra, familiares e amigos, rompendo laços para lançar-se em um horizonte de incertezas, na esperança de encontrar dias melhores em um Novo Mundo. Emigrar é (re)partir-se.

No decorrer do século XIX até as primeiras décadas do século XX, milhões de europeus vivenciaram a experiência da emigração. Muitos deixaram o seu país temporariamente em busca de trabalho nos países vizinhos. Outros aventuraram-se a atravessar o Atlântico, partindo em direção ao Novo Mundo, na tentativa de “fazer a América”. Estima-se que, entre 1815 e 1914, mais de 50 milhões de indivíduos partiram da Europa em direção ao continente americano (ROSOLI apud GONÇALVES, 2012), sendo os anos de 1880 a 1914 o período mais intenso do fluxo migratório, com 31 milhões de indivíduos (KLEIN, 2000).

A emigração dos italianos atingiu grandes proporções entre as décadas de 1860 e 1910. Inicialmente o êxodo atendeu a demanda por força de trabalho da França, Alemanha, Áustria e Suíça. Nos anos de 1880, ocorreu um rápido crescimento do fluxo para países como Estados Unidos, Argentina e Brasil que acabou superando o movimento migratório de italianos no continente europeu.

Tabela imigração

Gráfico imigração

A quantidade de emigrantes italianos é significativa para uma população que, na época da unificação, possuía 22 milhões de habitantes. Em 1880, esse número se elevou para 28 milhões e, em 1914, alcançou a cifra de 36 milhões (BERTONHA, 2005, p. 84).

ITÁLIA, 1861.

 

Vittorio Emanuele II é proclamado rei da Itália após o reino do Piemonte-Sardenha conquistar a Lombardia, anexar Parma, Módena e Toscana e ocupar as Duas Sicílias. O processo de unificação italiana estava perto de ser concluído, mas restava anexar o território veneziano e conquistar a cidade de Roma.

 

Mapa da Península Itálica durante o processo de unificação italiana. Autor: Nancy Torres (2021).

 

A Itália havia passado por um duro período de guerras, acordos diplomáticos e até plebiscitos para unificar seu território, transformando-o em um Estado Moderno integrado ao sistema capitalista de produção. O novo estado instituiu altos impostos para financiar o seu projeto de nação, o que impôs um enorme sacrifício à população. Pouco depois, somou-se às pesadas medidas fiscais o confisco de propriedades rurais cujos donos não conseguiam pagar os impostos sobre a farinha. Entre 1875 e 1881, foram confiscadas 61.831 propriedades e, entre 1884 e 1901, 215.759 (TRENTO, 1989, p. 31-32). Nas cidades, o lento crescimento industrial era insuficiente para absorver as centenas de milhares de trabalhadores expulsos dos campos.

“Coltiviamo grano e non so cosa sai il pane bianco. Coltiviano vigneti e no bere vino. Prendersi cura degli animali e mai mangiare carne. Indossari stracci, vivo in covis. E com questo, non si vuole emigrare? Oppressi e vessati in ogni modo possible, andaimo via, per voi a vivero meglio...” 

(Trecho da carta enviada ao Ministro italiano Giovanni Nicotera, por camponeses da Lombardia em 1876)

[Tradução: “Cultivamos o trigo e não sabemos o que é o pão branco. Cultivamos vinhas e não bebemos vinho. Criamos animais e nunca comemos carne. Vestimos farrapos e moramos em covis. E com isso, o senhor não pretende que emigremos? Oprimidos e vexados de todas as maneiras possíveis, partimos, para que o senhor viva melhor...”]

O medo dos levantes sociais promovidos pelas centenas de milhares de camponeses destituídos das suas terras acabou levando diversos setores da sociedade a apoiar a emigração de italianos, que passou a ser considerada como uma possível solução para as questões de ordem pública. Desse modo, na década de 1860, milhares de italianos da Ligúria partiram para outros países da Europa e da América. No decênio seguinte, o movimento emigratório atingiu o Piemonte e a Lombardia, mas foi com os emigrantes do Vêneto que teve início o deslocamento em massa de italianos. O Mezzogiorno (o Sul da Itália e a Itália insular) juntou-se ao fluxo no final da década de 1880, registrando um grande número de saídas de Basilicata, Calábria, Abruzos e Campânia. A Sicília começou a participar do êxodo mais tardiamente, a partir dos anos de 1890.

 

Mapa da Itália por regiões. Autor: Nancy Torres. 2021.

Os italianos do Norte emigravam preferencialmente para outros países da Europa. Entretanto, Argentina e Brasil conseguiram atrair uma migração significativa oriunda do Norte da Itália, diferente dos Estados Unidos, onde 80% dos imigrantes italianos eram provenientes do Sul. Os Estados Unidos tornaram-se o principal destino dos italianos a partir da década de 1890. Antes disso, a maioria seguia para a América do Sul, que recebeu imigrantes de todas as regiões da Itália.

Durante o período entre guerras, nas décadas de 1920 e 1930, a emigração italiana também passou a estar relacionada à trágica experiência do fascismo.  O governo italiano buscou promover o fasci all’estero, isto é, expandir a presença do Partido Nacional Fascista entre os italianos que estavam fora do país, enquanto mecanismo de preservação da italianidade. Além disso, houve italianos que emigraram devido à perseguição política e ao antissemitismo (BERTONHA, 1997).

A emigração se tornou ainda mais expressiva a partir de 1938, com a promulgação de leis raciais de caráter antissemita durante o governo de Mussolini na Itália. O Brasil foi um dos destinos desse contingente de imigrantes, apesar dos judeus serem enquadrados na categoria de “indesejáveis”. Para burlar as restrições, muitos imigrantes judeus italianos entraram no país como turistas, como católicos ou ainda com cartas de chamada compradas, algo denunciado e combatido pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

Entre 1938 e 1945, cerca de 700 judeus refugiados italianos desembarcaram no Brasil. Embora seja um número pequeno, essa imigração tinha um perfil muito específico e diferenciado do fluxo migratório característico do período da Grande Imigração, visto que esteve mais relacionada às perseguições raciais do fascismo aos judeus do que às questões econômicas (CAMPAGNANO, 2001). A presença em terras brasileiras de simpatizantes e opositores ao governo totalitário de Mussolini conferiu uma comunidade italiana “ideologicamente dividida”, formada por fascistas, refugiados judeus e também por um considerável número de antifascistas e anarquistas (BERTONHA, 1997).

O Brasil esteve entre os principais destinos de imigrantes italianos no continente americano. Essa realidade se manteve mesmo após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando a Itália lutou no Eixo, ao lado de Alemanha e Japão. Após a guerra, o país ficou arrasado devido aos conflitos e bombardeios, além da estagnação econômica e carestia que atingiam inúmeras famílias, afetando as condições de vida e trabalho. A pobreza se alastrava em diversos lugares do país, desde as cidades, onde havia pouca oferta de trabalho, até os campos que, carecendo de mecanização e tecnologia, sofreram com o aumento da desigualdade social, econômica e política dos camponeses. Imersos em um quadro socioeconômico de grandes dificuldades, a imigração era cogitada enquanto possibilidade real de mudança.

As notícias e propagandas vindas do ultramar anunciavam que o Brasil estava em franco crescimento. Elas mobilizaram diversos italianos, que viam na emigração um bom negócio e uma esperança de melhorar de vida. Assim, entre os anos de 1945 e 1969, os italianos eram o terceiro maior grupo de imigrantes no Brasil, atrás apenas de portugueses e espanhóis.