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A Viagem (Il Viaggio)

Quando os navios carregados de emigrantes estavam prestes a partir, seus passageiros se amontoavam no convés, segurando a ponta de uma fita que era lançada aos familiares e amigos que ficavam no cais. Eles seguravam aquela fita entre os dedos até o último momento, quando ela finalmente se rompia.

A intensa movimentação de pessoas dos mais diversos cantos da Itália em direção às Américas foi facilitada pelo avanço nos setores de comunicação e transporte. Enquanto as ferrovias encontravam-se em franca expansão, interligando o interior do país aos principais portos, embarcações a vela eram substituídas por navios a vapor.

Com o aumento da circulação de pessoas, tornou-se comum cenas de emigrantes dormindo ao relento ou lotando os precários albergues localizados nas imediações das estações marítimas enquanto aguardavam a vinda do navio que os conduziria para o outro lado do Atlântico.

“Os pobres emigrantes que se dirigem à América continuam a oferecer um espetáculo verdadeiramente desolador. Os arcos da Praça Caricamento, da rua Carlo Alberto e da Igreja D’Annunziata [em Gênova] foram novamente ocupados há algumas noites por uma multidão de desgraçados [...]. O Município convém dizê-lo, em honra da verdade, fez o que pode para que aquela pobre gente fosse ao menos protegida das intempéries e recolheu-as em grande número na artilharia da CAMPANETTA. Mas desses dias a passagem extraordinária de tropas, as quais o Município teve que providenciar alojamento, fez com que a delegacia de polícia municipal se encontrasse na impossibilidade de atender a tantas necessidades, enquanto homens, mulheres, crianças lactantes passavam as noites sobre o mármore expostos; e por consequência disso um número extraordinário deles adoeceu, e foi recolhido ao hospital PAMATTONE!”

 

(Il Caffaro. 29 de setembro de 1876 apud GONÇALVES, 2012, p. 115)

“No interior da Estação Marítima existe um local de inspeção de bagagem e vistoria dos emigrantes que passam pelo Inspetor de Segurança Pública e por um médico da Capitânia. A sujeira das roupas e dos corpos, devido à longa viagem de trem e, sobretudo, à impossibilidade de utilização, antes do embarque, dos serviços de higiene, rende um espetáculo ainda mais triste e miserável, além de ser motivo de riso por parte dos inspetores que, sem qualquer consideração pelo sofrimento à dignidade humana, costumam gritar para fazer avançar os emigrantes: “Em frente imundos!”

(Ferrucio Macola. L’Europa alla conquista dell’America Latina. Veneza. 1894 apud GONÇALVES, 2012, p. 117)

No livro Sull”Oceano, publicado em 1889, Edmondo De Amicis descreve aspectos da sua viagem de Gênova até Montevidéu, a bordo do vapor Galileo. Famílias que emigravam para a América do Sul foram retratadas pelo escritor que lhes deu voz ao narrar suas experiências.

“Quando cheguei, à noite, o embarque dos emigrantes já tinha começado havia uma hora, e o Galileo, junto à descida de uma pequena ponte móvel, continuava a ensacar a miséria: uma procissão interminável de gente que saía em grupos do edifício em frente, onde um delegado de polícia examinava os passaportes. Muitos emigrantes, depois de passarem uma ou duas noites ao relento, agachados como cães pelas ruas de Gênova, estavam exaustos e cheios de sono. Operários, camponeses, mulheres com filhos no peito, crianças [...] passavam, portando quase tudo: uma cadeira dobrável sob o braço, sacos e malas de todas as formas na mão ou na cabeça, braçadas de colchões e cobertas, e o bilhete com o número do beliche comprimido entre os lábios. [...]

Mas o espetáculo era a terceira classe, onde a maior parte dos imigrantes, com fortes enjoos, desordenadamente espalhados, atravessados nos bancos, com atitudes de doentes ou de mortos, com os rostos sujos e os cabelos desarrumados, em meio a um grande emaranhado de cobertores e trapos. Viam-se famílias próximas em grupos que davam compaixão, com um ar de abandono e de perda, que é próprio de uma família sem teto: o marido sentado e adormecido, a mulher com a cabeça apoiada nos ombros dele, e as crianças sobre o chão, dormindo com a cabeça no joelho dos dois.”

(DE AMICIS, 1889 apud SILVA, 2006).

Os vapores possuíam uma capacidade muito superior à das embarcações a vela. Para os passageiros, mesmo os emigrantes que viajavam na 3ª classe, isso significava mais espaço. Para as companhias de navegação, isso representava um grande investimento que possibilitava conjugar o transporte de cargas e de pessoas, atendendo a crescente demanda de passageiros, no período em que os movimentos migratórios se intensificavam.

Os agentes da emigração eram figuras importantes no processo migratório. Eles recrutavam emigrantes nas mais remotas vilas da Itália, com a promessa de terra e trabalho nas Américas. Inicialmente, os agentes eram funcionários dos governos americanos. Pouco depois, foram sendo substituídos por pessoas da localidade como, por exemplo, os padres que liam as propagandas migratórias para os seus fiéis ao final das missas.

Em 1950, foi assinado um Acordo de Migração entre Brasil e Itália, a fim de estabelecer um convênio de imigração. Nele, estava previsto que o governo brasileiro incentivaria tanto a migração espontânea quanto a migração dirigida, isto é, com intervenção mais direta do Estado no controle, seleção e encaminhamento para o trabalho. Após 10 anos de sua implementação, um novo acordo entre os países viria a se efetivar em 1960, porém, menos exitoso que seu anterior.

 

Para que a viagem fosse bem-sucedida, havia uma série de protocolos que os imigrantes deveriam cumprir. Os imigrantes eram submetidos a uma inspeção médica que comprovasse seu estado saudável e, consequentemente, sua aptidão para o trabalho. Além disso, também deviam apresentar documentos que comprovassem que não havia pendências judiciais que impedissem o deslocamento. Todas essas comprovações eram visadas nos consulados do Brasil na Itália ou por agentes de imigração, que faziam anotações nos passaportes e o preenchimento da ficha consular de qualificação.

 

 

A viagem da família Righi teve início no momento que partiram de Módena em direção a Gênova. De Gênova, embarcaram no vapor “Béarn”, da Société Générale de Transports Maritimes a Vapeur. A embarcação havia partido de Marselha, no dia 25 de junho de 1898, para em seguida tocar os portos de Gênova, Nápoles e Gibraltar. No mês seguinte, chegou ao Brasil, passando por diversos portos antes de chegar ao Rio de Janeiro, no dia 21 de julho.

 

Após desembarcar na cidade do Rio de Janeiro, muitos imigrantes eram encaminhados para a Hospedaria da Ilha das Flores, localizada em São Gonçalo. Na Hospedaria passavam pelos serviços de registro e inspeção médica antes de serem alojados. Depois de alguns dias, eram transportados para os locais de destino. Era o fim de uma viagem e o início de uma nova vida.

Os italianos eram a nacionalidade mais numerosa na Hospedaria da Ilha das Flores, visto que não possuíam tantas redes de contato com imigrantes já estabelecidos no Rio de Janeiro como os portugueses. Muitos vinham para o Brasil sem nenhum conhecimento do país que os recebia, incluindo a língua. Para estes, a hospedaria representava a melhor oportunidade de migrar para as terras brasileiras, sobretudo levando em conta o incentivo do governo brasileiro em atrair mão de obra para o país.